Recentemente, o Brasil acompanhou o caso de dezenas de pessoas que foram contaminadas pela doença de Chagas após consumirem caldo de cana, em Santa Catarina, e açaí, no Amapá. Pelo menos, cinco delas morreram. A suspeita foi de que barbeiro, o transmissor do mal de Chagas, ou suas fezes tenham sido moídos e misturados aos alimentos consumidos pelas pessoas contaminadas.
Segundo o Ministério da Saúde, a ocorrência do surto constituiu um evento extremamente raro, que não guarda nenhuma relação com a atual situação do controle da Doença de Chagas no Brasil. “O país vem alcançando a interrupção da transmissão vetorial da doença, compromisso assumido com os países do Cone Sul e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), já tendo sido certificados pela Opas 11 Estados dentre 13 que apresentavam este vetor (Santa Catarina não está incluído entre estes)”, informou o órgão.
A Bahia é um dos estados brasileiros onde ainda há registro de pessoas infectadas pela doença. “Houve um espanto geral ante a notícia da transmissão da doença de Chagas por via oral, como se fosse fato inédito. Embora seja incomparavelmente mais rara
do que a via vetorial (picada do barbeiro), já existem casos desse tipo desde 1966 na Amazônia e Pará. Nosso estado tem risco de contágio, pois temos o vetor e hospedeiros contaminados, podendo transmitir a doença”, diz o cardiologista Dr. Luis Roque CREMEB 8239). Descoberta em 1909 pelo brasileiro Carlos Chagas, a doença de Chagas é típica do continente americano, por isso também é chamada de tripanosomíase americana.
O maior transmissor da doença tem um nome pomposo: Triatoma, mas é vulgarmente conhecido por várias alcunhas, como bicho-de-parede, bicho-defrade, gaudério, procotó, rondão, chupança e barbeiro. A doença também pode ser transmitida por transfusão e sangue ou durante a gravidez, de mãe para filho. “Para evitar o contágio, deve-se fazer o controle dos portadores da Doença de Chagas evitando que sejam doadores de sangue. As pessoas também devem evitar ingestão de alimentos que não tenham controle higiênico ou procedência garantida nas regiões mais prevalentes”, recomenda.
Infelizmente, a doença de Chagas ainda não tem cura cientificamente reconhecida. Enquanto os pesquisadores não descobrem um remédio eficaz, o combate à doença tem que se limitar à sua prevenção. E até agora o método mais prático tem sido o combate sistemático ao “barbeiro”, dificultando e/ou impedindo a sua proliferação nas residências e em seus arredores. Segundo o Dr. Luis Roque, não existe uma vacina eficaz. A grande esperança reside na terapia que está em fase experimental com células tronco, com resultados iniciais animadores.
Além de moléstia terrível, a doença de Chagas é também conseqüência da miséria social, porque ataca, sobretudo, as camadas mais desamparadas da população, onde persistem condições de desnutrição, analfabetismo, falta de higiene, entre outros. “Para evitar o contágio nas áreas endêmicas, deve haver uma melhoria das condições de moradia com paredes rebocadas e sem fendas, para evitar que o barbeiro infeste o domicílio”, alerta o cardiologista.